Advento | Esperança e Fé



Já estamos no final de 2020 e há um ano não imaginávamos que meses depois, estaríamos sob os efeitos de uma pandemia, de alcance mundial.

Para nós cristãos, não deixa de ser um desafio falar de esperança, alegria e fé, falar na manifestação gloriosa do Senhor Jesus, quando ainda não se vê a luz, que assinala o final dessa espécie de pesadelo.

A pandemia veio revelar a fragilidade de cada um de nós. Foi um ano que estivemos afastados de nossa rotina de trabalho, fora de casa. Tivemos que buscar novas formas de seguir em frente.

A pandemia como que nos pôs dentro de casa. Em vários sentidos, nos fez ver pessoas, sinais e sentimentos que antes não tínhamos tempo de ver e sentir. Nos fez falar sobre e realizar tarefas em conjunto. Tivemos que recriar espaços e momentos antes não vivenciados, com aqueles que vivem sob o mesmo teto.

A pandemia nos fez olhar pra dentro de nós mesmos, e rever valores e sentimentos, nos fez olhar o outro, e colocar em questão a empatia. Sentimos tristeza cada vez que os índices de morte e infectados aumentam.

Mas, além das perdas sofridas, causadas por todo um sistema que nega a vida, tivemos o sofrimento da violência doméstica atingindo idosos, crianças e, principalmente, mulheres. O fato de estarem confinadas em casa, as fez experimentar o que há de pior no ser humano: desprezo, insultos, agressões, ódio... Então como falar de esperança? Como enxergar a justiça e a mão divina, em um tempo onde vivemos massacres e vidas foram e continuam sendo ceifadas pela intolerância, e abusos? Como falar de vida plena em Deus se há muitos que em nome de um deus, justificam atos de morte?

Devemos acreditar, e acreditar que sim, vale a pena continuarmos profetizando e clamando! Quando não nos calamos e não nos conformamos com a injustiça, já estamos de alguma forma mostrando que há possibilidades de um novo amanhecer: “Ele transformará o deserto num paraíso, a secura num jardim de Javé” Is. 51.3“

Ao longo das narrativas bíblicas, percebemos exemplos de mulheres que vivenciaram experiências de sacrifício, como as de nosso tempo, mulheres que lutaram pelo sustento, enfrentaram conflitos familiares, sofreram com a doença e morte, foram coerentes no exercício da cidadania e expressaram, de forma profunda e singela, a busca pela comunhão com Deus.

É, deste caminhar, e deste esperançar, que precisamos nos agarrar, nos unirmos e assim vencer as tempestades.

O tempo do Advento serve para nos preparar para celebrar o Natal, não como se fosse apenas aniversário natalício de Jesus e sim como ação de graças por sua presença em nossas vidas. A celebração do Advento e Natal deve principalmente alimentar nossa esperança na manifestação (epifania) do Senhor na renovação do mundo. O Advento nos abre a uma esperança nova. Afinal, a última palavra vinda diretamente de Deus está no final do livro do Apocalipse e, significativamente, é “Faço novas todas as coisas” (Ap 21, 5). A pandemia nos obrigará a viver um Natal novo. A necessidade do distanciamento social, a obrigação de evitar aglomerações e o cumprimento de outros protocolos, nos remete, para a simplicidade. O “papai Noel” será on-line, o que nos faz olhar para o alto e agradecer ao “Papai do Céu” que cumpre o prometido nos enviando Jesus.

A primeira atitude interior necessária para nos abrir ao que o Espírito nos diz hoje é nos tornarmos capazes de sair de nós mesmos e superar. Necessitamos do olhar empático para com todos que vivem em situação de miséria, de solidão e opressão. Precisamos levar sim, sinais de esperança, através de atitudes concretas e ações solidárias. Precisamos sim nos unirmos, pra vencermos os conflitos e lutas diárias. Somos todos responsáveis por um mundo mais justo, mais fraterno. Deus nos abençoe e nos auxilie sempre a buscarmos, mesmo no meio do deserto, os raios da esperança.

E para concluir, compartilhamos um trecho do poema de Cris Pizzimenti.

Sou feita de retalhos.

Pedacinhos coloridos de cada vida que passa pela minha e que vou costurando na alma.

Nem sempre bonitos, nem sempre felizes, mas me acrescentam e me fazem ser quem eu sou.

Em cada encontro, em cada contato, vou ficando maior...

Em cada retalho, uma vida, uma lição, um carinho, uma saudade..

Que me tornam mais pessoa, mais humana, mais completa.

E penso que é assim mesmo que a vida se faz: de pedaços de outras gentes que vão se tornando parte da gente também.

E a melhor parte é que nunca estaremos prontos, finalizados.

Haverá sempre um retalho novo para adicionar à alma.


Deus abençoe a todas e todos, muita paz, esperança e fé, durante a jornada!

Bispa Meriglei Borges Silva Simim, Bispa diocesana da Diocese Anglicana de Pelotas.


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