VIVENDO COM HIV/AIDS DESAFIOS E PRECONCEITOS DO DIA A DIA

Atualizado: 2 de Dez de 2020


O HIV é a sigla em inglês do vírus da imunodeficiência humana, vírus esse que penetra nas células de defesa do ser humano, responsável por defender o organismo de doenças. As células mais atingidas são os linfócitos T CD4+. E é alterando o DNA dessa célula que o HIV faz cópias de si mesmo. Depois de se multiplicar, rompe os linfócitos em busca de outros para continuar a infecção e dependendo do grau da imunidade e resposta do indivíduo pode causar a AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) que deixa o organismo fragilizado e susceptível a pegar várias outras doenças.

A forma de transmissão é mais comumente transmitida durante a relação sexual sem uso de preservativo e pela troca de fluidos corporais. O contágio também pode acontecer durante a gravidez, no parto, em transfusões sanguíneas, transplantes de órgãos, pela amamentação e por compartilhamento de agulhas contaminadas. Todas as pessoas podem ter uma IST, mas há situações que deixam algumas pessoas mais vulneráveis, como: Profissionais do sexo, profissionais que usam materiais perfurocortantes, pessoas em situação de rua, pessoas que usam drogas ou álcool, entre outras; Casais que têm dificuldades de falar sobre as IST e o uso do preservativo, ou até mesmo aqueles com histórico de violência sexual; Travestis e transexuais que podem sofrer preconceito, violência e discriminação no acesso aos serviços de saúde. É importante frisar que o amor não protege as pessoas das infecções, as relações homoafetivas e heteroafetivas estão expostas às IST, mas cada tipo de relação tem suas especificidades, o preconceito pode impedir a pessoa de buscar informações sobre IST.

No Brasil, o primeiro caso de AIDS foi identificado clinicamente em São Paulo, em 1982. No início, a epidemia atingiu principalmente os usuários de drogas injetáveis, homens que faziam sexo com homens e pessoas que tinham recebido transfusão de sangue e de hemoderivados contaminados. Entretanto, na metade dos anos de 1990, verificou-se que a epidemia assumiu outro perfil. A transmissão heterossexual passou a ser a principal via de transmissão do HIV. Atualmente, há uma tendência de crescimento da infecção em jovens de 15 a 24 anos e em adultos com 50 anos ou mais, tanto em homens quanto em mulheres. Segundo relatórios do UNAIDS bem como nos informativos mais recentes do Ministério da Saúde (para dados nacionais), estatísticas globais sobre o HIV em 2019, existem 37,9 milhões [32,7 milhões—44,0 milhões] de pessoas em todo o mundo vivendo com HIV (até o fim de 2018). Cerca de *24,5 milhões [21,6 milhões—25,5 milhões] de pessoas com acesso à terapia antirretroviral (*até o final de junho de 2019). Em média 1,7 milhão [1,4 milhão—2,3 milhões] de novas infecções por HIV (até o fim de 2018). Até o fim de 2018, 770 000 [570 000—1,1 milhão] de pessoas morreram de doenças relacionadas à AIDS. Identificou-se que 74,9 milhões [58,3 milhões—98,1 milhões] de pessoas foram infectadas pelo HIV desde o início da epidemia (até o fim de 2018). E por fim 32 milhões [23,6 milhões—43,8 milhões] de pessoas morreram de doenças relacionadas à AIDS desde o início da epidemia (até o fim de 2018).

O diagnóstico do HIV é de fácil acesso à população, existe no Sistema Único de Saúde (SUS), em todas as unidades básicas de saúde da família a oferta do teste rápido de HIV, sendo realizado por profissionais capacitados, de simples execução e não necessitam ser realizados em laboratórios; o resultado está disponível em até 30 minutos. Além dos testes rápidos que utilizam amostras de sangue total, também existem testes realizados com amostra de “fluido oral”. E ainda tem os exames realizados em laboratórios quando solicitados por profissionais de saúde frente a procura do indivíduo. Fora esses testes mencionados acima, existe ainda a dispensação por alguns municípios do auto teste de HIV Ação, onde o indivíduo tem acesso ao exame de triagem e o realiza onde se sentir mais confortável para fazer, sozinho ou com a presença de alguém de sua confiança. Vale ressaltar que os autotestes de HIV são testes de triagem e, portanto, os resultados não podem ser utilizados para o diagnóstico definitivo. Em caso de resultado positivo, o Ministério da Saúde orienta que o usuário busque o serviço de saúde para testes complementares. Nas caixas de autoteste de HIV há um número 0800 do fabricante para tirar dúvidas e dar orientações aos usuários. Este serviço funciona 24 horas e 7 dias por semana. Participam da estratégia inicial de distribuição de auto testes as cidades de São Paulo, Santos, Campinas, Piracicaba, São José do Rio Preto, Ribeirão Preto, São Bernardo do Campo, Rio de Janeiro, Curitiba, Florianópolis, Salvador, Porto Alegre, Belo Horizonte, Manaus. A OMS estima que 75% das pessoas que vivem com o HIV estão cientes de sua condição.

Ainda não existe cura para o HIV, embora os tratamentos sejam muitos mais eficientes do que no passado. Iniciar o tratamento antirretroviral precocemente – o quanto antes! – é uma forma de garantir qualidade de vida, de alcançar mais rapidamente o nível de carga viral indetectável e, dessa forma, tornar-se agente de prevenção. O tratamento é ofertado gratuitamente no Brasil pelo SUS. Esse é o começo de uma nova vida, sim, é possível viver com HIV e ser saudável. Sim, é possível viver com HIV e sonhar, ser feliz e ter uma vida longa e produtiva! Porém mesmo em meio da evolução de conhecimento e tratamento à respeito da doença, infelizmente ainda hoje em 2020 o estigma e preconceito continua. Existe um alto índice de discriminação sofrida pelas pessoas vivendo com HIV/Aids no sistema de saúde.

Em 2019 foi publicado um livro sobre um estudo realizado no Brasil foi executada em sete capitais: Manaus (AM), Brasília (DF), Porto Alegre (RS), Salvador (BA), Recife (PE), São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ), com 1.784 pessoas, entre abril e agosto de 2019. Tem como título: “Índice de Estigma em relação às pessoas vivendo com HIV/AIDS” é uma ferramenta para detectar e medir a mudança de tendências em relação ao estigma e à discriminação relacionados ao HIV, a partir da perspectiva das pessoas vivendo com HIV e com AIDS. Trás algumas falas forte sobre os desafios que pessoas com HIV/AIDS enfrentam e vivenciam mesmo depois de tantas mudanças.

“Viver com HIV ser negro e de periferia são vivências turbulentas. Cada dia é matar uma manada de leões. Homossexual então...mas nada é por acaso. não se pode voltar no tempo, mas ao me tratar e me cuidar, trato e cuido do próximo. e assim vamos vivendo um dia de cada vez.” Homem CIS, preto, GAY, 40 Anos. (pág. 19).

Muitas pessoas mantêm em segredo sua condição por medo de ser rejeitado e discriminado, observa-se isso na seguinte fala do livro mencionado:

"Tenho muito medo que minha família descubra que eu tenho HIV. Se já me descriminaram por ser lésbica, imagine se descobrirem que sou soropositiva." Mulher CIS, preta, lésbica, 54 Anos "Aprendi nesses anos de soropositividade a nunca revelar o meu estado de saúde, sem ter a absoluta confiança na outra pessoa. Decepções, discriminações, preconceitos e outras formas de machucar psicologicamente, quando contei sem ter essa segurança e confiança, deixaram com marcas profundas que nunca cicatrizaram." mulher CIS, Indígena, heterossexual, 34 Anos. (pág. 29).

Diante dessa realidade ainda vivida por essas pessoas, no estado do Tocantins, no município de Palmas existe uma instituição chamada Casa A+ fica localizado na quadra 503 norte, alameda 05 quadra 3 lote 9. Fruto do trabalho da organização a Associação Anglicana de Solidariedade do Cerrado, ela atua na capital desde 2011, com o principal objetivo em acolher a população de um modo geral, mais focando em grupos mais vulneráveis ao HIV (jovens, gays, homens que fazem sexo com homens/HSH, travestis, transexuais, profissionais do sexo e usuários de drogas). A Casa A+ tem como missão atuar na prevenção das Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST’S), oferecer assistência social, viabilizar acesso à saúde, defesa de direitos, principalmente das pessoas vivendo com HIV ou doentes de AIDS e hepatites virais, além de ações de advocacia para a população geral, com foco nos grupos mais vulneráveis.

Portanto, infelizmente o HIV/AIDS afeta não só a saúde do indivíduo, mais o psicológico e o social, trazendo sofrimento, medo, constrangimento, preconceito, discriminação, e mesmo sendo uma doença muito conhecida e estudada, com formas de prevenção simples, e acesso a diagnóstico e tratamentos eficazes para garantir uma longevidade de vida com qualidade, existe muitos tabus pela sociedade, que evita em até mesmo tocar no assunto.


Rayanne Sousa Melo

Enfermeira pós-graduada em saúde da mulher e ginecologia obstétrica, Especialista em saúde da família e da comunidade, Residente do Programa Multiprofissional em Saúde Coletiva.




REFERÊNCIAS

Ministério da saúde. Diagnostico do HIV. Outubro 2014. Disponível em: https://telelab.aids.gov.br/moodle/pluginfile.php/22163/mod_resource/content/2/HIV%20-%20Manual%20Aula%201_SEM.pdf acesso em: 14.11.2020


https://unaids.org.br/deu-positivo-e-agora/?gclid=Cj0KCQiAnb79BRDgARIsAOVbhRoLAYeV9xZjKahTpJwIFVW_hbTwKTUz5Ybx6Zl-8HvpY1MQEKbDDqsaAi1SEALw_wcB

https://unaids.org.br/wp-content/uploads/2019/12/2019_12_06_Exec_sum_Stigma_Index-2.pdf

http://www.aids.gov.br/pt-br/noticias/anvisa-autoriza-fabricacao-de-autotestes-e-distribuicao-e-retomada-nos-14-municipios-de


publicações do UNAIDS Brasil http://www.aids.gov.br/pt-br/publico-geral/o-que-e-hiv


https://www.msf.org.br/o-que-fazemos/atividades-medicas/hivaids?utm_source=adwords_msf&utm_medium=&utm_campaign=aids_comunicacao&utm_content=_exclusao-saude_brasil_39923&gclid=Cj0KCQiAnb79BRDgARIsAOVbhRq31aUxv_2m6RzPrekYWRmp9d6WCqfuNIWcX3n0XzF7yo5LRRGggmAaAsAHEALw_wcB

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